O que é a Psicanálise?

Psicóloga Lívia: A Psicanálise é um método de atendimento terapêutico criado por Sigmund Freud que tem como base a compreensão da existência de uma parte inconsciente no psiquismo humano e a influência dessa parte inconsciente nos atos e decisões assumidos pelo indivíduo nas experiências cotidianas.
Assim, de acordo com Freud, para que possamos mudar nossos atos e pensamentos precisamos conhecer, também, esse conteúdo inconsciente que faz parte de nós. Porém, este conteúdo não nos é tão acessível e o que faz parte de seu conteúdo são pensamentos e sentimentos que nos incomodam muito. Com isso, ele descobriu que só conseguimos entrar em contato com esses conteúdos quando gostamos muito da pessoa e nos sentimos muito a vontade com ela. Quando sentimos certa admiração por ela e acreditamos que ela possa nos ajudar a ver nossa vida de uma maneira bem diferente. Sob a visão da Psicanálise, esse sentimento é muito importante e pode sustentar um tratamento e garantir suas conquistas.

Na medicina, quando um paciente tem um problema o médico identifica os sintomas, levanta as causas e receita um tratamento. Como isso funciona na Psicanálise?

Psicóloga Lívia: Hoje em dia é muito comum um paciente chegar na minha consulta em busca de soluções para os seus sintomas (insônia, ansiedade, medo excessivo, etc…) ou de um remédio que os alivie. Porém, o meu objetivo no trabalho terapêutico é bem diferente disso. Os sintomas psíquicos (como, por exemplo, os citados acima) tem um motivo para existirem: eles foram a melhor maneira (a melhor saída) que a pessoa encontrou para lidar com as dificuldades que a vida lhe apresentou. Assim, não tem como eliminá-los ou fazê-los sumir.
O que podemos, com certeza, é entender os motivos que fizeram emergir (apresentar) esses sintomas e quais são os sentidos (significados) atribuídos a estes sintomas por aquela pessoa. Apesar da simplicidade que exponho esse objetivo, este não é tão fácil de alcançar. Pois, tanto para conhecer quais são essas dificuldades e esses sintomas, como para compreender quais experiências do indivíduo o influenciaram a reagir desta maneira, leva muito tempo. Até porque, nem todo o material necessário para elaboração está consciente, está acessível para a pessoa quando ela busca ajuda. E, muitas vezes, ela precisa acessar questões que já esqueceu há muito tempo atrás e que nem quer mais entrar em contato com estas. Ela mesma as esconde e dificulta o tratamento, sem perceber que faz isso.
Com isso, é preciso tempo dedicado ao atendimento e paciência para esperar o momento em que essa pessoa se sinta confortável com o profissional para dizer tudo o que vier a sua mente e tudo que possibilite a elaboração de seus sofrimentos (angústias). É preciso confiança! E, confiança, demanda tempo.

Como é a forma de atendimento dos pacientes encaminhados para você, Lívia, na Primed?

Psicóloga Lívia: Atualmente conduzo o meu atendimento de duas formas:
Num primeiro momento, costumo acolher o paciente, escutar seus sintomas e conhecer sua história, compreender e conhecer quais são as expectativas desse paciente em relação ao seu atendimento.
Para, num segundo momento, ou sugerir um tratamento mais focado, o que pode ser chamado de psicoterapia psicanalítica breve, em que focalizamos especificamente num sintoma (problema, sofrimento) e tentamos trabalhar para mudar a posição do paciente diante das situações que o favoreceram; ou, para aqueles que percebo que conseguem se comprometer, ofereço o tratamento analítico clássico, que tem suas condições (costumo divulgá-las na sessão) e que pode proporcionar uma mudança mais completa para o indivíduo, porém não tem um tempo de duração definido.
Contudo, é importante ressaltar as diferenças entre ambos: o tratamento psicanalítico breve pode ter um período definido (geralmente de 8 meses à 2 anos), mas, por outro lado, é um tratamento focado e não promove, necessariamente, uma mudança geral na conduta do indivíduo. Ele pode promover um alívio momentâneo dos sintomas e uma leve mudança em aspectos pontuais da vida da pessoa, mas não pode favorecer a permanência dessas mudanças. Já o tratamento psicanalítico clássico favorece uma mudança mais firme na conduta do indivíduo, pois temos mais tempo para lidar com as dificuldades, o que significa que posso acompanhar os obstáculos e as dificuldades que a pessoa irá encontrar ao lidar com os desafios que a mudança vai proporcionar a ela. Já que compreendo que o ser humano se desenvolve num processo dinâmico e as conquistas que obteve hoje, podem não permanecerem amanhã e ele vai precisar de tempo para alcançá-las com mais firmeza.
A escolha entre ambos vai depender do desejo do indivíduo.

Atualmente, todos querem tudo para ontem e tem certa impaciência em diversas esferas das suas vidas. Você nota esse comportamento dos pacientes que trata na clínica?

Psicóloga Lívia: Como foi mencionado antes, é muito comum receber pacientes ansiosos por soluções rápidas para o seu sofrimento. Compreendo que a promessa para aliviar imediatamente um sofrimento possa ser bem tentadora, mas não posso oferecer isso. Preciso de tempo para conhecer a pessoa e ajudá-la a enxergar outros caminhos que podem passar despercebidos no momento do desespero.
Preciso de tempo para conhecer o paciente, suas histórias, sua dinâmica para lidar com os conflitos da vida, seus desejos em relação ao futuro e as relações afetivas, além da importância de cada uma delas, para que, com todo esse conhecimento, consiga ajudá-lo nas decisões e condutas mais adequadas para sua vida.
Acho muito importante mencionar que o tempo também auxilia na minha relação com o paciente, pois quanto mais ele convive comigo, mais confia em mim e se sente autorizado e confortável em compartilhar todas essas informações, que não são necessariamente compartilhadas com todas as pessoas que convivemos. Muitas vezes, precisamos falar de coisas bem difíceis e desagradáveis da vida pessoal e o paciente precisa se sentir seguro e confiante para poder discutir sobre esses assuntos.

 Com o amplo acesso as informações disponíveis na Internet, muitas pessoas pesquisam sobre seus sintomas e tentam se autodiagnosticar antes de consultar um especialista no problema. Você verifica isso nas pessoas que atende?

Psicóloga Lívia: Em algumas consultas, a pessoa já vem com um diagnóstico efetuado pelo médico ou, por curiosidade, pesquisou seus sintomas na Internet e conseguiu um nome para eles. Algumas até sabem todos estes decorados e os medicamentos sugeridos.
Não desconsidero a importância desse movimento para essa pessoa e o alívio que ele pode proporcionar para ela, mas o foco do meu trabalho não é classificar tais sintomas e verificar em qual grupo de transtornos psiquiátricos a pessoa se encontra.
Como já discuti anteriormente, para o meu trabalho é importante encontrar e compreender quais os sentidos que o paciente atribui para aquele determinado sintoma e qual a dinâmica que o fez persistir na vida dele. Concentro-me mais na história de vida da pessoa, nas dificuldades que ela experimentou na vida e como aprendeu a lidar com elas, do que nos sintomas que apresenta naquele momento.

Você trabalha com crianças, Lívia? Qual é a particularidade deste trabalho na sua especialidade? Quais os problemas mais comuns ao receber uma criança no consultório?

Psicóloga Lívia: O meu atendimento também é com as crianças e gosto muito deste!
O atendimento com crianças, apesar das semelhanças com o atendimento adulto, tem a particularidade da técnica baseada na brincadeira. Assim como o adulto fala e sua fala expressa seus pensamentos e sentimentos, a criança brinca e usa sua brincadeira para se expressar. Com isso, o atendimento de crianças é baseado prioritariamente no brincar. Também gosto muito de histórias (Contos de Fadas, Lendas, Mitos, etc…) e por acreditar que estes também expressam conflitos (problemas) das crianças, costumo utilizá-los no atendimento.
Costumo perceber que é muito comum os pais se sentirem fracassados ao perceberem a necessidade de procurar um psicólogo para o filho (a), sentirem que surgiu tal necessidade pois, não conseguiram fazer sua função paternal corretamente, motivo, pelo qual, muitas vezes, nem o procuram. Mas, é necessário que eles entendam que o fato do filho estar sofrendo ou com dificuldades de relacionamento não é necessariamente só culpa deles, a própria criança pode ter criado essas dificuldades e não existe necessariamente uma ação deles que pudesse ser suficiente para mudar isso.
Acredito que os pais devem focar na perspectiva de que quanto antes procurarem ajuda para resolver tais sofrimentos, mais cedo poderão desfrutar de uma convivência familiar bem mais agradável.

A hiperatividade é um assunto que tem se falado muito recentemente, especialmente em relação às crianças dessa nova geração. Qual a sua opinião no assunto?

Psicóloga Lívia: Sou da compreensão que existe um exagero no diagnóstico da hiperatividade atualmente no mercado, pois existem muitas crianças sendo diagnosticadas como hiperativas e, muitas vezes, são apenas crianças. Digo isto, no sentido de que não conseguem cumprir com as expectativas comportamentais da escola. Acredito que esse processo vem ocorrendo porque as professoras e coordenadoras não conseguem lidar muito bem com a impulsividade das crianças em sala de aula e as querem sentadas, quietas e prestando atenção na aula. Uma situação ideal que nunca vi se concretizar plenamente durante a minha experiência de vida. E, essa não é minha proposta!
Acho que precisamos, sim, de disciplina com as crianças, mas não podemos transformá-las em robôs. Precisamos aprender a lidar com todo o excesso que elas trazem e incentivá-las a usá-lo para outras formas de atividade como a arte, a música, o conhecimento em si, etc…
O ideal é que a criança apresente uma curiosidade pelo conhecimento e, por mais difícil que seja incentivar isso nela, precisamos nos esforçar para alcançar esta meta.

Lívia Cruz Sanches Joris
Psicóloga

Formação Acadêmina na Pontifícia Universidade

Católica de Campinas

Instituto Sedes Sapientiae

Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

CategoryEntrevista

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